PT Stereo
Distribution Systems
A difusão da fotografia estereoscópica: as colecções comerciais
A estereoscopia foi a primeira técnica a garantir um sistema de distribuição para a fotografia. A edição de colecções comerciais com séries temáticas, narrativas e pedagógicas permitiu a difusão nacional e internacional das vistas estereoscópicas e, deste modo, a sua participação numa cultura visual alargada e especializada na documentação de realidades distantes. No caso português, estas colecções apresentam três tipologias predominantes: colecções comerciais editadas no estrangeiro com séries dedicadas a Portugal; colecções comerciais editadas em Portugal; colecções comerciais editadas por fotógrafos amadores portugueses com produção fotográfica centrada na estereoscopia. Apresentam-se abaixo alguns exemplos.
The diffusion of stereoscopic photography: commercial collections
Stereoscopy was the first technique to ensure a distribution system for photography. The publication of commercial collections with thematic, narrative and educational series allowed the national and international diffusion of stereoscopic views and, therefore, their participation in an enlarged visual culture specialized in the documentation of distant realities. In the Portuguese case, these collections feature three predominant types: commercial collections published abroad with series dedicated to Portugal; commercial collections edited in Portugal featuring landscapes and national monuments; commercial collections edited by amateur photographers who had their photographic production mainly focused on stereoscopy. We present below some examples.
Colecções comerciais editadas no estrangeiro com séries dedicadas a Portugal
São exemplo desta tipologia a colecção norte-americana ‘Azores, Madeira and Portugal’, edição de Manuel Goulart, New Bedford, Massachusetts (Figuras 1a e 1b), assim como a colecção francesa ‘Vues de Portugal’ , edição L. L. Paris (Figura 2). Ambas as cidades de origem destas séries têm uma forte presença de comunidades portuguesas imigrantes (o próprio editor M. Goulart é açoreano), constituindo um mercado seguro para as vistas estereoscópicas das paisagens e dos monumentos nacionais.
Commercial Collections published abroad with series dedicated to Portugal
The American collection 'Azores, Madeira and Portugal', edited by Manuel Goulart, New Bedford, Massachusetts (Figures 1a and 1b), as well as the French Collection 'Vues de Portugal', Paris edition LL (Figure 2 ) are examples of this typology. Both series were from cities with a strong presence of Portuguese immigrant communities (the editor himself , M. Goulart, is from the Azores), providing a safe market for stereoscopic views of national landscapes and monuments.

Figura 1a. Chiado, Lisboa, 1897, M. Goulart, New Bedford, Mass., Col. V. Flores

Figura 1b. Chiado, Lisboa, 1897. Colecção ‘Azores, Madeira and Portugal’ , edição M. Goulart, New Bedford, Mass. (verso)

Figura 2. Les Quais de la Douanne, Lisbonne, Collection L. L. Paris — Vues de Portugal. Colecção do Museu da Cidade – Câmara Municipal de Lisboa (Inv. MC.FOT.0491)
Colecções comerciais editadas em Portugal
Entre as colecções comerciais temáticas portuguesas destacamos duas dedicadas às paisagens e aos monumentos nacionais: a ‘Collecção Estereoscópica — Assumptos Portuguezes’ (Figura 3) e a ‘Collecção Stereoscopica — Portugal’ através da série ‘Archivo Panoramico e Artístico’ (Figura 4a). Desta colecção apresenta-se também o verso de um dos cartões com um anúncio que apresenta a lista das séries temáticas disponíveis e que se refere às suas imagens como ‘Bilhetes postaes estereoscopicos’ (Figura 4b).
Commercial collections published in Portugal
Among the Portuguese commercial collections, there are two that stand out: 'Collecção Estereoscópica - Assumptos Portuguezes' (Figure 3) and 'Collecção Estereoscópica - Portugal' which edited the series ‘Archivo Panoramico e Artístico' dedicated to landscapes and national monuments (Figure 4a). We also present the back of one of the cards from this collection with a printed ad listing the available thematic series in the Collection. The text refers to its images as ' Stereoscopic Postcards' (Figure 4b).

Figura 3. Collecção Estereoscópica — Assumptos Portuguezes, Coleção do Museu da Cidade – Câmara Municipal de Lisboa (Inv. MC.FOT.0441)

Figura 4a. Collecção Stereoscopica — Portugal — Archivo Panoramico e Artístico, Colecção do Museu da Cidade – Câmara Municipal de Lisboa (Inv. MC.FOT.0479)

Figura 4b. Collecção Stereoscopica — Portugal — Archivo Panoramico e Artístico, Colecção do Museu da Cidade – Câmara Municipal de Lisboa (Inv. MC.FOT.0478 verso)
Colecções comerciais editadas por fotógrafos amadores portugueses
O desejo de divulgação e de reconhecimento levou vários fotógrafos amadores portugueses a produzir edições de autor com carácter comercial para as suas vistas estereoscópicas. Um dos exemplos mais reconhecidos desta prática é a colecção ‘Estereoscopio Portuguez — Aurélio Paz dos Reis’ onde se destacam os prémios que Paz dos Reis ganhou com as suas fotografias estereoscópicas nas Exposições Universais de Paris e de S. Luiz no início do século XX (Figuras 5a e 5b). A propósito, apresentamos um excerto das actas do júri da Exposição Universal de 1900 onde se destaca um elogio às estereoscopias de Paz dos Reis (Figura 5c). Um outro fotógrafo amador que promoveu uma edição comercial do seu trabalho, e que o projecto Stereo Visual Culture pôde identificar nos Arquivos públicos nacionais, é Jorge Almeida Lima (Figura 6). A estes dois casos (exemplos importantes da produção tardia em Portugal) poder-se-iam ainda acrescentar os cartões de Carlos Relvas e de Emilio Biel (percursores nacionais da fotografia estereoscópica), assim como outros exemplos mais associados a estúdios de fotografia.
Commercial collections edited by Portuguese amateur photographers
The need for publicity and recognition lead several Portuguese amateur photographers to edit their own stereoscopic views with commercial purposes. One of the most renowned examples is the collection 'Estereoscópio Portuguez' that issued the stereographs of Aurélio Paz dos Reis, highlighting the prizes he won for his photographic work in stereoscopy at the Universal Exhibitions in Paris (France) and Saint Louis (USA) in the early twentieth century (Figures 5a and 5b). On this topic we present an excerpt from the proceedings of the jury of the Universal Exhibition of 1900 where we underlined the reference to Paz dos Reis (Figure 5c). Jorge Almeida Lima is another amateur photographer who promoted a commercial edition of his work and that the ‘Stereo Visual Culture’ project has identified in the national public archives (Figure 6). Apart from these two cases (important examples of late stereoscopic production in Portugal), other cards by Carlos Relvas or Emílio Biel, both national pioneers of stereoscopic photography, could be added.

Figura 5. Colecção ‘Estereoscopio Portuguez — Aurélio Paz dos Reis — Porto’. Col. R. Peixoto

Figura 6. Excerto das actas do júri da Exposição Universal de 1900 em Paris in «Exposition universelle internationale de 1900 à Paris. Rapports du jury international» (Fonte: Le Conservatoire numérique des Arts & Métiers)

Figura 7. Jorge Almeida Lima (1853-1934), Positivo estereoscópico sobre cartão. Ecomuseu Municipal do Seixal - Centro de Documentação e Informação ©EMS / CDI (Inv. EMS.1995.00027.00000).
Viajar... em casa
A par da expansão das linhas férreas, do crescimento de outros meios de transporte e do aumento dos passeios de lazer, no sec. XIX a fotografia e a estereoscopia emergem na Europa (no mundo ocidental) como organizadoras da experiência visual do viajante. Começa aqui a compreensão da própria viagem como sucessão enumerativa de vistas de lugar, com destaque para monumentos, edifícios, obras de arte e paisagens. É também sabido que as séries comerciais de fotografia estereoscópica constituem práticas centrais do turismo doméstico do final do século. Para além disso, as caixas de cartão “Viajar... em Casa” (distribuídas pelo comerciante portuense José L. da Costa e usadas na organização de uma série de fotografia estereoscópica atribuída a J. Walmer e outros, Figura 8) dão conta da existência do viajante-fotógrafo estéreo. No interior destas caixas encontram-se 147 imagens de viagens de comboio realizadas por um grupo do Porto no início do séc. XX por cidades, vilas e aldeias de Portugal. As imagem que hoje restam, de entre as mais de 1000 placas de vidro que fizeram um dia parte desta colecção, foram adquiridas pelo Museu da Imagem em Movimento de Leiria. Estas são séries estereoscópicas através das quais se propunha ser possível viajar, sem sair de casa, até aos lugares visitados pelo fotógrafo.
Travelling… at home
Alongside railways expansion, new and better means of transport and the increase in leisure tourism, 19th century Europe saw photography and stereoscopy emerge as (key elements to )travellers’ visual experiences. Travel itself started to be understood as an enumerative succession of views of place, particularly of monuments, buildings, artworks and landscapes. It is known that stereo photography commercial series constitute central practices of turn-of-the-century armchair travel. Moreover, the “Viajar… em casa” card boxes (distributed by José L. da Costa and containing stereo photo series attributed to J. Walmer and others, Figure 8) account for the existence of the stereo traveller-photographer. Inside these boxes, there are 147 photographs of voyages made by train across Portugal by a group from Oporto in the beginning of the 20th century. The images (indeed, what was left of the over 1000 glass plates that once belonged to the collection) now belong to Museu da Imagem em Movimento from Leiria. These are stereo series that offered the viewer a trip, without leaving home, to the places visited by the photographer.

Figura 8. Caixas "Viajar… em casa", Museu da Imagem em Movimento, Leiria.